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Congelamento de óvulos por motivo social

23/03/2019 · Notícias

O congelamento de óvulos pode ser considerado, hoje, uma ferramenta do empoderamento feminino, pela liberdade de posicionar o momento da maternidade na timeline, em concordância com os planos pessoais e profissionais. O significado desse motivo social para a autonomia feminina e a equivalência de gêneros é inconteste. Entretanto, aspectos éticos em torno do assunto merecem atenção, já que a fertilidade da mulher no momento do congelamento dos seus óvulos é apenas presumida e não se pode assegurar a eficácia reprodutiva da reserva preservada. Em outras palavras, o congelamento de óvulos é uma tentativa de se preservar a fertilidade, mas está longe de ser garantia de prole genética no futuro.

Felizmente, já se pode esperar que os resultados da fertilização in vitro de óvulos congelados sejam os mesmos observados com gametas frescos: dados recentes demonstram que as taxas de fertilização, gravidez em andamento e nascidos vivos são estatisticamente semelhantes. Dessa forma, as expectativas em relação aos nascimentos potenciais para o congelamento eletivo de óvulos devem estar baseadas muito mais na idade da mulher à época do congelamento que em qualquer outro aspecto.

Sabemos que, com o avanço da idade, há uma diminuição progressiva do número e da competência reprodutiva dos óvulos. Por isso, estima-se o sucesso do congelamento eletivo de óvulos em função da idade da mulher no momento da coleta e do número de gametas coletados: aos 35 anos, o congelamento de 15 óvulos maduros confere chance de 85% de a mulher ter pelo menos um filho; com aquele número de óvulos, as chances caem para 60% aos 38 anos e para cerca de 40%, aos 40. Entretanto, com 5 óvulos maduros congelados, as chances caem para cerca de 40%, 20% e 15% naquelas idades, respectivamente.

Cabe dizer, também, que a compilação dos relatos de nascidos vivos resultantes da fertilização de óvulos congelados nas últimas três décadas não identifica prejuízos aparentes ao desenvolvimento das crianças. Esse é um dado significativo, já que as preocupações acerca da saúde de pessoas geradas a partir das técnicas de reprodução assistida são reincidentes nas literaturas científica e leiga.

Por fim, embora ganhe destaque cada vez maior em textos técnicos e já seja uma rotina em centros de medicina reprodutiva, o tema da preservação de fertilidade por motivo social ainda é altamente discutível, não apenas pelos aspectos éticos já mencionados, mas pelas incertezas à respeito da idade ideal para sua realização. Fala-se na idade-limite biologicamente ideal de 35 anos, mas na melhor relação custo-benefício aos 37 ou 38 anos. Esses, entre outros, são pontos controversos e que ainda carecem da elucidação devidamente baseada em evidências.

Cabe dizer: o que vale mesmo hoje é o bom senso e a orientação precoce, pois, em decorrência do comportamento reprodutivo da sociedade moderna, em que o adiamento do momento de ter filhos é o paradigma, é provável que mais da metade da população mundial já viva em países com baixas taxas de fertilidade. A informação séria e bem embasada é fundamental para a tomada de decisões conscientes.

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Texto escrito originalmente para a Revista da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Distrito Federal (SGOB) e ampliado para publicação noLinkedIne no Blog da Bonvena.

 

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