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Os limites naturais da fertilidade

27/02/2019 · Notícias

A maternidade tardia é uma realidade contemporânea e, por isso, um tema recorrente em matérias de revistas e jornais. Cabe a nós, ginecologistas e, principalmente, especialistas em medicina reprodutiva, atenção àquelas notícias, para que a interpretação do que se propaga seja a correta. Muitas vezes, dissemina-se com descuido a ideia de que o medicina reprodutiva, com sua tecnologia, é capaz de proporcionar a maternidade a qualquer tempo além das fronteiras naturais. Sabemos que essa é uma verdade relativa e temos o dever de prestar à sociedade esclarecimentos.

De acordo com o sugerido por um estudo publicado em 2012, metade das mulheres ficariam chocadas em saber que existe uma queda da fertilidade entre os 35 e os 45 anos de idade. Dentre as entrevistadas, um terço acreditava na persistência de alguma fertilidade até a menopausa e que a gravidez aconteceria sem dificuldades aos 40 anos de idade. Os achados do estudo sustentam uma preocupação cotidiana no consultório, quando preciso esclarecer às mulheres naquela faixa etária (ou com idade maior) que, mesmo que se sintam jovens e saudáveis, e gozem de plena capacidade profissional, são reais os efeitos negativos do tempo sobre a fertilidade.

Calcula-se que 3 em cada 4 mulheres com 30 anos de idade consigam dar à luz uma criança viva dentro de um ano, mas que apenas 44% conseguirão quando as tentativas de gravidez ocorrem aos 40 anos de idade. Em grandes populações, enquanto a infertilidade esteve presente em cerca de 30% das mulheres casadas com 35 a 39 anos, chegou a 64% entre 40 a 44 anos.

Um estudo interessante publicado na revistaHuman Reproduction, uma das mais importantes revistas científicas na área de medicina reprodutiva no mundo, demonstrou que a queda progressiva do potencial reprodutivo com o avanço da idade já
ocorria cerca de dois séculos atrás, em padrão semelhante ao de hoje: queda lenta até um ponto entre os 35 e os 40 anos, e queda acelerada a partir dos 40.

Sabe-se que tanto a quantidade quanto a qualidade dos óvulos caem com o avanço da idade e que uma parcela significativa das candidatas à maternidade tardia serão inférteis quando desejarem gestar. E, novamente, é importante frisar: as técnicas de reprodução assistida não são capazes de reverter a interferência negativa da idade feminina sobre a fertilidade. As taxas acumuladas de nascimentos por ciclo de fertilização in vitro iniciados entre 2012 e 2015 em toda a América Latina ilustram muito bem essa realidade: enquanto 41%das mulheres darão à luz aos 31 anos, 36% o farão aos 35 anos, 26% o farão aos 38 anos, 15% o farão aos 40 anos e menos de 5%, aos 44 anos ou mais.

O congelamento dos óvulos em idade jovem é, sem dúvida, a grande oportunidade de se preservar as chances de concepção de um filho genético no futuro. Entretanto, chamo atenção para um detalhe muito importante: ele não é uma garantia dos filhos no futuro, mas uma tentativa de se preservar a fertilidade de hoje para o amanhã.

 

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